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Um amigo é às vezes o deserto, poema de Eugénio de Andrade

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Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre


um corpo é o lugar da furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;


é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.


O real é a palavra.

Eugènio de Andrade

leia mais sobre o autor e seus poemas:
http://saldalingua.wordpress.com/

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obscuro domínio, um poema de Eugénio de Andrade

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Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.


Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio flui
e se concentra.


Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.


Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,


no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,


onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio (1972) e Poesia.

Fonte:http://saldalingua.wordpress.com/

coda, um poema de Eugénio de Andrade

Quando o ser da luz for
o ser da palavra,
no seu centro arder
e subir com a chama
(ou baixar à agua),
então estarei em casa.

Eugénio de Andrade
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o sal da língua

persistente
Foto: Kiem Tang, ••• Persistent.

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade – Poeta Português

Corpo habitado

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Foto: Bill Durgin, Figurations.

Corpo habitado
Eugénio de Andrade

Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema