maio 13th, 2010 in Poemas, Versos que Conversam | 1 Comment »
O caminho das dunas

Há um barco
há um homem nas areias.
Obscuramente aprende
a morrer onde as águas são mais duras.
Sei que é verão pelo hálito da loucura
o brilho em declínio das giestas
a caminho das dunas.
O homem adormecido
e a noite do poema eram de vidro.
Poema de Eugénio de Andrade.
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outubro 25th, 2009 in Poemas, Versos que Conversam | No Comments »

Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre
um corpo é o lugar da furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;
é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.
O real é a palavra.
Eugènio de Andrade
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setembro 2nd, 2009 in Poemas, Versos que Conversam | No Comments »

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.
Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio flui
e se concentra.
Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.
Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,
no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,
onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.
Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio (1972) e Poesia.
Fonte:http://saldalingua.wordpress.com/
junho 10th, 2009 in Poemas, Receitas de Poetas, Versos que Conversam | No Comments »
Quando o ser da luz for
o ser da palavra,
no seu centro arder
e subir com a chama
(ou baixar à agua),
então estarei em casa.
Eugénio de Andrade
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março 24th, 2009 in Foto do Dia, Poemas | 4 Comments »

Foto: Kiem Tang, ••• Persistent.
O sal da língua
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Eugénio de Andrade – Poeta Português