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	<title>Vidráguas &#187; Fernando Pessoa</title>
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		<title>Pérolas que adoçam a vida Vidráguas&#8230;</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 16:50:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Clique e amplie para ler… Pérolas que adoçam a vida, uma leitura e seleção de arte de Cristina Lopes,boas leituras e sempre poesia a todos por aqui.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/viewer16.png" rel="lightbox[13694]"><img src="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/viewer16-300x225.png" alt="" title="viewer" width="300" height="225" class="alignnone size-medium wp-image-13695" /></a><br />
<br />
Clique e amplie para ler… Pérolas que adoçam a vida, uma leitura e seleção de arte de <a href="http://vidraguas.com.br/wordpress/2012/01/21/perolas-que-adocam-a-vida-4/">Cristina Lopes</a>,boas leituras e sempre poesia a todos por aqui. </p>
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		<title>Pérolas que adoçam a vida em Vidráguas&#8230;</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Jan 2012 13:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Clique e amplie para ler&#8230; Pérolas que adoçam a vida, uma leitura e seleção de arte de Cristina Lopes,boas leituras e sempre poesia a todos por aqui.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/viewer13.png" rel="lightbox[13578]"><img src="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/viewer13-300x225.png" alt="" title="viewer" width="300" height="225" class="alignnone size-medium wp-image-13579" /></a><br />
<br />
Clique e amplie para ler&#8230;<br />
<br />
Pérolas que adoçam a vida, uma leitura e seleção de arte de <a href="http://vidraguas.com.br/wordpress/2012/01/13/perolas-que-adocam-a-vida-3/">Cristina Lopes</a>,boas leituras e sempre poesia a todos por aqui.</p>
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		<title>poesia em quadrinhos, desta vez Fernando Pessoa</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jul 2011 19:29:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para ler cliquem na imagem. Esta semana a produção foi maior e sempre muito criativa, por isso hoje publicamos o trabalho de Hosamis Pádua, que está levando este trabalho para as Escolas em seu Projeto Pontuação, junto com Luiza Maciel Nogueira. Logo, logo, estaremos divulgando a anunciando aqui mais novidades&#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/Poesia-em-Quadrinhos-Fernando-Pessoa-Ao-longe-ao-luar-definitiva.jpg" rel="lightbox[10974]"><img src="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/Poesia-em-Quadrinhos-Fernando-Pessoa-Ao-longe-ao-luar-definitiva.jpg" alt="" title="Poesia em Quadrinhos Fernando Pessoa Ao longe ao luar (definitiva)" width="448" height="336" class="alignnone size-full wp-image-10975" /></a><br />
<br />
Para ler cliquem na imagem.<br />
<br />
Esta semana a produção foi maior e sempre muito criativa, por isso hoje publicamos o trabalho de Hosamis Pádua, que está levando este trabalho para as Escolas em seu Projeto Pontuação, junto com Luiza Maciel Nogueira. Logo, logo, estaremos divulgando a anunciando aqui mais novidades&#8230; </p>
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		<title>pensando a Poesia com Fernando Pessoa</title>
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		<comments>http://vidraguas.com.br/wordpress/2011/05/16/pensando-a-poesia-com-fernando-pessoa-2/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 16 May 2011 15:27:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8221; O poeta vale aquilo que vale o melhor de seus poemas.&#8221; Poesia Os críticos podem dizer que determinado poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos, pois, que conservar o dia bom [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8221; O poeta vale aquilo que vale o melhor de seus poemas.&#8221;<br />
<br />
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<br />
<strong>Poesia</strong><br />
<br />
Os críticos podem dizer que determinado poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos, pois, que conservar o dia bom em memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novo astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.<br />
<br />
Fernando Pessoa em Livro do Desassossego<br />
<br />
Leia mais<br />
<span id="more-10237"></span><br />
<br />
<strong>Amar é Pensar </strong><br />
<br />
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,<br />
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.<br />
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,<br />
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.<br />
Amar é pensar.<br />
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.<br />
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.<br />
Tenho uma grande distração animada.<br />
Quando desejo encontrá-la<br />
Quase que prefiro não a encontrar,<br />
Para não ter que a deixar depois.<br />
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.<br />
Quero só Pensar nela.<br />
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.<br />
<br />
Alberto Caeiro, in &#8220;O Pastor Amoroso&#8221;<br />
Heterónimo de Fernando Pessoa<br />
<br />
<strong>Dizem que finjo ou minto</strong><br />
<br />
Dizem que finjo ou minto<br />
Tudo que escrevo. Não.<br />
Eu simplesmente sinto<br />
Com a imaginação.<br />
Não uso o coração.<br />
<br />
Tudo o que sonho ou passo,<br />
O que me falha ou finda,<br />
É como que um terraço<br />
Sobre outra coisa ainda.<br />
Essa coisa é que é linda.<br />
<br />
Por isso escrevo em meio<br />
Do que não está ao pé,<br />
Livre do meu enleio,<br />
Sério do que não é,<br />
Sentir, sinta quem lê !<br />
<br />
Fernando Pessoa em o Cancioneiro<br />
<br />
<strong>O Passado é o Presente na Lembrança </strong><br />
<br />
Se recordo quem fui, outrem me vejo,<br />
E o passado é o presente na lembrança.<br />
Quem fui é alguém que amo<br />
Porém somente em sonho.<br />
E a saudade que me aflige a mente<br />
Não é de mim nem do passado visto,<br />
Senão de quem habito<br />
Por trás dos olhos cegos.<br />
Nada, senão o instante, me conhece.<br />
Minha mesma lembrança é nada, e sinto<br />
Que quem sou e quem fui<br />
São sonhos diferentes.<br />
<br />
Ricardo Reis, in &#8220;Odes&#8221;<br />
Heterónimo de Fernando Pessoa<br />
<br />
<strong>Carta de Fernando Pessoa para Adolfo Casais Monteiro</strong><br />
<br />
Meu prezado Camarada:<br />
<br />
Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.<br />
<br />
Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer cousa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica., que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.<br />
<br />
Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de «Mensagem». Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras cousas. E essas cousas pela mesma natureza do livro, a «Mensagem» não as inclui.<br />
<br />
Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto incitaram-me a que o publicasse: acedi. Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior. O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, até, que não poderia concorrer ao prémio, pois ignorava que o prazo para entrega dos livros, que primitivamente fora até fim de Julho, fora alargado até ao fim de Outubro. Como, porém, em fim de Outubro já havia exemplares prontos da «Mensagem», fiz entrega dos que o Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas condições (nacionalismo) de concorrer. Concorri.<br />
<br />
Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de «Mensagem» figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande – um livro de umas 350 páginas –, englobando as várias sub-personalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.<br />
<br />
Concordo consigo, disse, em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação de «Mensagem». Mas concordo com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer. Precisamente porque essa faceta – em certo modo secundária – da minha personalidade não tinha nunca sido suficientemente manifestada nas minhas colaborações em revistas (excepto no caso do Mar Português, parte deste mesmo livro) – precisamente por isso convinha que ela aparecesse, e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação prática), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto.<br />
<br />
(Interrompo. Não estou doido nem bêbado. Estou, porém, escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo permite, e vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que literatura haja nelas. Suponha – e fará bem em supor, porque é verdade – que estou simplesmente falando consigo.)<br />
<br />
Respondo agora directamente às suas três perguntas: (1) plano futuro da publicação das minhas obras, (2) génese dos meus heterónimos, e (3) ocultismo.<br />
<br />
Feita, nas condições que lhe indiquei, a publicação da «Mensagem», que é uma manifestação unilateral, tenciono prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista; essa deve estar pronta em breve e conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente.) Depois – e agora respondo propriamente à sua pergunta, que se reporta a poesia – tenciono, durante o verão, reunir o tal grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos. Será esse o volume que o Casais Monteiro espera, e é esse que eu mesmo desejo que se faça. Esse, então, será as facetas todas, excepto a nacionalista, que «Mensagem» já manifestou.<br />
<br />
Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. E contudo – penso-o com tristeza – pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa., impuro e simples!<br />
<br />
Creio que respondi à sua primeira pergunta.<br />
<br />
Se fui omisso, diga em quê. Se puder responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus!<br />
<br />
Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.<br />
<br />
Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e cousas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia&#8230;<br />
<br />
Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro – os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.<br />
<br />
Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas cousas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as cousas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.<br />
<br />
Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em que, um rival do Chevalier de Pas&#8230; Cousas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida – ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.<br />
<br />
Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura – cara, estatura, traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo&#8230; E tenho saudades deles.<br />
<br />
(Em eu começando a falar – e escrever à máquina é para mim falar –, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz.)<br />
<br />
Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)<br />
<br />
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente&#8230; Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.<br />
<br />
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.<br />
<br />
Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.<br />
<br />
Quando foi da publicação de Orpheu, foi preciso, à última hora, arranjar qualquer cousa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos – um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão&#8230;<br />
<br />
Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido – estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido –, diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!<br />
<br />
Mais uns apontamentos nesta matéria&#8230; Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1,30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 in de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É, um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.<br />
<br />
Como escrevo em nome desses três?&#8230; Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular o que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas cousas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso.)<br />
<br />
Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever. (1)<br />
<br />
Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo. Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é Criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente – o que é facto – que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888.(2) Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho.(3)<br />
<br />
Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder, e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa.<br />
<br />
Abraça-o o camarada que muito o estima e admira.<br />
<br />
Fernando Pessoa<br />
<br />
P. S. (!!!)<br />
<br />
Recortes e poemas retirados do livro de  Citações e Pensamentos, Fernado Pessoa, organização Paulo Neves da Silva, editora LeYa. </p>
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		<title>repensando meus poemas com Pessoa</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Jan 2011 13:40:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tempo de Escritura Nascimento e morte! Os demais são marcas do visto, do sentido ou do relógio. Todos… ponteiros sinalizadores de momentos, sonhos e ilusões. Desassossegos me acusam : Há mais eus do que um mesmo, encontrando vidas nunca imaginadas. Vidas de sombras… de esquinas. Vidas tantas que não caibo mais em meus tecidos. Daí, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="450" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/1txlvgcqxTg?fs=1&amp;hl=pt_BR"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/1txlvgcqxTg?fs=1&amp;hl=pt_BR" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="450" height="385"></embed></object><br />
<br />
Tempo de Escritura<br />
Nascimento e morte!<br />
<br />
Os demais são marcas do visto, do sentido ou do relógio.<br />
Todos… ponteiros sinalizadores de momentos, sonhos e ilusões.<br />
Desassossegos me acusam<br />
:<br />
Há mais eus do que um mesmo,<br />
encontrando vidas nunca imaginadas.<br />
Vidas de sombras…<br />
de esquinas.<br />
Vidas tantas que não caibo mais em meus tecidos.<br />
Daí, esse corpo dilacerado!<br />
Ele e eu sempre pensamos existir em apenas uma alma.<br />
Pequena?<br />
Mas, apenas uma…<br />
<br />
Suportável?<br />
Mas vestindo dedos, pés, mãos, pernas e braços, adornados por um coração pulsante e uma mente que de tantas buscas quedou num espaço invisível onde transbordam mundos além dos polos.<br />
<br />
Mundos enrugados…<br />
camuflados.<br />
Escondido por dobras, víceras e tais…<br />
Muros que se apresentam da tela real.<br />
Momentos feito fantasmas<br />
que driblam uma ingênua criança<br />
impossibilitando-a de querer acordar no amanhã.<br />
<br />
Desnaturada, a pequena criatura, perde seus hojes do caminho.<br />
Apavorada, fecha suas janelas…<br />
Suplicante, adormece na noite para que o dia sobreponha-se ao Sol<br />
estrela fulgurante<br />
que lhe abrirá o perdido presente.<br />
<br />
Pede a cada lua um novo sol…<br />
e a cada beijo um novo despertar.<br />
De dois momentos vividos, apenas lhe restará um.<br />
Assim é o espaço…<br />
assim é a vida!<br />
Onde um nasce<br />
um outro morre<br />
e surge o novo, feito Fênix Universal<br />
Cinzas mágicas do tempo que faíscam despertares na existência.<br />
Mágicos renascimentos… verdes pílulas.<br />
<br />
Tempo de viver, tempo de escritura!<br />
<br />
Carmen Silvia Presotto</p>
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		<title>Vidráguas aos 122 de Fernando Pessoa!</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Jun 2010 19:29:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Videos]]></category>
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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/gWI1gs0dJYk&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/gWI1gs0dJYk&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
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		<title>pessoas, pessoa</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 13:33:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Versos que Conversam]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Neves]]></category>

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		<description><![CDATA[Pessoa No fingimento de teus versos descobri que a língua podia sentir-me fora de mim. Eu também quis ser toda gente e em toda parte traduzir-me. Sou o outro que fui outrora? Em meus versos, mais compacto, o teu sentimento ainda soa. Poema Pessoa, p. 13 do livro: Viagem, espera de Paulo Neves, Companhia das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pessoa<br />
<br />
No fingimento de teus versos<br />
descobri que a língua podia<br />
sentir-me fora de mim.<br />
Eu também quis ser toda gente<br />
e em toda parte traduzir-me.<br />
Sou o outro que fui outrora?<br />
Em meus versos, mais compacto,<br />
o teu sentimento ainda soa.<br />
<br />
Poema <em>Pessoa,</em> p. 13 do livro: <em>Viagem, espera</em> de Paulo Neves, Companhia das Letras- 2006  </p>
]]></content:encoded>
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		<title>pensando a Poesia com Fernando Pessoa</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 02:16:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
				<category><![CDATA[conversando sobre literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Receitas de Poetas]]></category>
		<category><![CDATA[Versos que Conversam]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[pensando com]]></category>
		<category><![CDATA[Teresa Rita Lopes]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;&#8230; o poeta é um fingidor finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente&#8230;&#8221; &#8220;&#8230;A palavra contém dois elementos – esse elemento presentação e o elemento ritmo. Na literatura em prosa, o ritmo é uma consequência e um elemento subordinado. Na poesia inverte-se essa situação, e o ritmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;&#8230; <em>o poeta é um fingidor<br />
finge tão completamente<br />
que chega a fingir que é dor<br />
a dor que deveras sente</em>&#8230;&#8221;<br />
<br />
<img src="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/fernando-pessoa.jpg" alt="fernando-pessoa" title="fernando-pessoa" width="312" height="448" class="alignnone size-full wp-image-4627" /><br />
<br />
&#8220;&#8230;A palavra contém dois elementos – esse elemento presentação e o elemento ritmo. Na literatura em prosa, o ritmo é uma consequência e um elemento subordinado. Na poesia inverte-se essa situação, e o ritmo passa a ser o elemento predominante. Assim, num sentido, que é o de que aqui nos servimos, a poesia se opõe à literatura. A poesia parte da emoção, a prosa da inteligência. Por isso não é permitido ser confuso em prosa, a não ser que essa prosa seja poesia. Em poesia a clareza não é necessária, desde que o ritmo o seja.<br />
<br /> <br />
O ritmo e o sentido – um poema é uma obra literária em que o sentido se determina através do ritmo. O ritmo pode determinar o sentido inteira ou parcialmente. Quando a determinação é inteira, é o ritmo que talha o sentido, quando é parcial, é no ritmo que o sentido se precisa ou precipita. Na tradução de um poema, portanto, o primeiro elemento a fixar é o ritmo.<br />
<br />
Três tipos de poetas – poetas de profundeza (pensamento), em que a base inspiracional é uma idéia, uma compreensão, interpretação das cousas; &#8211; poetas de construção, em que a base inspiracional é o assunto, isto é, uma cousa vista como um todo composto de detalhes; &#8211; poetas de intensidade, em que a base inspiracional é consoante o grau de sensação que uma cousa desperta.<br />
<br />
Poetas pensadores – são de três espécies: &#8211; aqueles em que o poeta e o personagem estão absolutamente fundidos (Anthero); &#8211; aqueles em que o pensamento e a expressão poética d’ ele se acham inteiramente separados, de modo que o pensamento é conscientemente posto em verso, ainda que sendo a natureza artística intensa, em magnífico verso (Goethe em parte); Hugo às vezes; os poetas do século 18; &#8211; aqueles em que o pensamento é pensado poeticamente, mas não realizado com perfeito (e artístico) afastamento; nem com fusão modeladora em perfeita arte, do pensamento (Bocage, Wordsworth, Pascoaes).<br />
<br />
<img src="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/pessoainedito.jpg" alt="pessoainedito" title="pessoainedito" width="336" height="448" class="alignnone size-full wp-image-4628" /><br />
<br />
leia todo o recorte<br />
<span id="more-4626"></span><br />
<br />
O ritmo e a onda – o movimento de qualquer composição literária é o da onda. Divide-se em 3, 4 ou 5 tempos esse movimento, consoante a maneira como se decomponha para a nossa análise. O movimento da ode consiste essencialmente em 3 tempos, e, como o da ode, o de toda poesia lírica. O movimento está tradicionalmente gravado na estrofe, antiestrofe e epodo da ode grega. O primeiro tempo corresponde à lenta subida da onda, ao chegar à praia; o segundo movimento corresponde àquele tempo em que a onda reflui sobre si própria, curvando-se; o terceiro tempo corresponde àquele gesto da vaga quando, findo o movimento anterior, se espraia e alonga pela areia. Assim, pois, as relações entre a estrofe e a antiestrofe são as seguintes: a antiestrofe procede da estrofe ou prolonga-a; e, ao mesmo tempo, opõe-se-lhe; assim como, ao fazê-lo, a faz culminar. As relações entre a antiestrofe e o epodo são análogas, posto que não iguais. O epodo ao mesmo tempo que prolonga a antiestrofe, liga, por cima d’ ela, com a estrofe; e, ao fazer isto, completa o movimento ideativo posto na estrofe, que a antiestrofe ao mesmo tempo prolongou e interrompeu. É o movimento tese-antitese-síntese da dialética platônica. Foi a grande descoberta dos gregos na arte esta da estruturação.<br />
<br /> <br />
Fica, desde já, compreendido porque é que o final dos poemas e das outras obras literárias da Grécia é calmo; porque o fim da onda, o seu espraiar-se está ao mesmo nível que o princípio, e o princípio tem de ser calmo, porque é o princípio. O fim regressa ao nível do princípio.<br />
O lirismo puro – conhece-se a poesia lírica pelo fato de ser quase desprezível a ideação ou o sentimento para existir uma boa poesia lírica. Assim o “Ai flores, ai flores do verde pino” ou o “levantou-se a velida” de D. Diniz, rei de Portugal, são poesias líricas maravilhosas conquanto contenham uma insignificante base ideativa ou mesmo emocional. É o lirismo puro. Claro está que, dentro deste lirismo, a poesia será tanto maior quanto mais idéia e emoção contém. O lirismo de Burns é parco ao lado do de Shelley&#8230;&#8221;<br />
<br />
Teresa Rita Lopes, <em>Pessoa inédito</em>,  Lisboa: Horizonte, 1993<br />
*(capit. 7: A palavra e a voz – sub-cap. 7.1 Sobre a arte literária &#8211; pag 382 a 388)<br />
A autora do livro traz como “sem data” os textos inéditos de Fernando Pessoa. </p>
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		<title>apontamento, poema de Fernando Pessoa</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Aug 2009 18:21:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmen</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Versos que Conversam]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Pessoa]]></category>

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		<description><![CDATA[Apontamento A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia louça no vaso. Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Apontamento<br />
<br />
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.<br />
Caiu pela escada excessivamente abaixo.<br />
Caiu das mãos da criada descuidada.<br />
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia  louça no vaso.<br />
<br />
Asneira? Impossível? Sei lá!<br />
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.<br />
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.<br />
<br />
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.<br />
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.<br />
E fitam os cacos que a criada deles fez em mim.<br />
<br />
Não se zanguem com ela.<br />
São tolerantes com ela.<br />
O que era eu um vaso vazio?<br />
<br />
Olham os cacos absurdamente conscientes,<br />
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.<br />
<br />
Olham e sorriem.<br />
Sorriem tolerantes à criada involuntária.<br />
<br />
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.<br />
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.<br />
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?<br />
Um caco.<br />
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.<br />
<br />
<strong>Fernando Pessoa</strong>, pag. 119, <em>Antologia Poética</em>, EDIOURO.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>isto</title>
		<link>http://vidraguas.com.br/wordpress/2009/03/22/isto/</link>
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		<pubDate>Sun, 22 Mar 2009 17:37:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ricardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Foto do Dia]]></category>
		<category><![CDATA[Poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[Zhang Jingna]]></category>

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		<description><![CDATA[Foto:Zhang Jingna, Ophelia. ISTO Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://vidraguas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/ophelia.jpg" alt="ophelia" title="ophelia" width="333" height="500" class="alignnone size-full wp-image-2359" /><br />
Foto:<a href="http://zemotion.net/">Zhang Jingna</a>, Ophelia.</p>
<p>ISTO</p>
<p>Dizem que finjo ou minto<br />
Tudo que escrevo. Não.<br />
Eu simplesmente sinto<br />
Com a imaginação.<br />
Não uso o coração.</p>
<p>Tudo o que sonho ou passo,<br />
O que me falha ou finda,<br />
É como que um terraço<br />
Sobre outra coisa ainda.<br />
Essa coisa é que é linda.</p>
<p>Por isso escrevo em meio<br />
Do que não está ao pé,<br />
Livre do meu enleio,<br />
Sério do que não é.<br />
Sentir? Sinta quem lê!</p>
<p>Fernando Pessoa, Antologia Poética, Coleção Prestígio, EDIOURO</p>
]]></content:encoded>
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