Bufões da Água

Instantes mudos, esses em que miramos as fotografias. São eles que nos falam…
Enquanto mentimos viver, o sonho das águas, a Poesia, transplante de almas, nos estende a mão.
Ilotopie!
Um caminho, um espetáculo sob as águas.
E sabemos:
Lagos
Oceanos
e Portos
sempre foram inspiração para o imaginário.
Todos ocupam lugares em nosso sonho.
Mas hoje, os Bufões da Água nos trazem uma visão espetacular desta vida úmida. Espelhada, através de fogos, surge pedalando a Rainha Aquática e sua Corte sob o Rio de Londres e como se estivessem saindo das páginas de um livro, as imagens vão escorrendo de nossos olhos.
Durante, algumas horas, precisamos esfregar os olhos para ver que não era sonho, era o Tâmisa cenário e palco do Festival das Águas.
E em suas margens, em seus retalhos, entre carros e caravanas
somos alguma costura desta flutuação
ponte do mudo instante, somos algum zumbido
a revirar os ouvidos a margem deste Verde Lago.
E

Era sexta feira a noite em Docklands, o verão em Londres é sempre especial para eventos ao ar livre. Sentamos na grama frente ao lago, e já caia a noite quando no meio do lago surge navegando algo que parecia um Fiat 147, precariamente iluminado.
Começava Fous de Bassin no Greenwich + Docklands International Festival 2009.
O tema deste ano: Água.


Leituras molhadas como iscas de vidas, fagulhas sob uma cama refletindo: mãe e filha, fogo e água a iluminar a leitura do lago em frente as Docas Londrinas, lugar onde navegações há muito vão e vem, feito árvores vivas, porto em labaredas, revelações de que um dia tudo era fogo, chamas para que uma cidade despertasse na águas sua história e legado…

Nas águas está o início, está o espelho, está o tempo grão, rondando de bicicleta o caminho do Tâmisa
pesca
sombrinhas
bicicletas
navegações
momentos que, no lago em nossa frente, espelha toda a vida Londrina se desfolhando no jornal lido pelo bufão que chega junto com um gari público que chega junto com a mãe menina que chegam iluminados pelos postes suspensos para que a água seja mais do que um lago, seja uma cidade palafita navegando entre tempos.

É noite e a cidade acorda.
A mãe menina do início retorna várias vezes a nossa frente, como querendo indicar em suas aparições, várias gestações e mudanças. Sua criança cresce. Alastrada a cidade, a menina mãe atravessa o rio, anunciando-nos que dali veio o progresso que, hoje, segue estendido das margens da docas ao Convent Garden, à Oxford Street…

No ar, agora há muitos acordes, um caos sinfônico que nos desfragmenta para o inusitado. Esfregamos os olhos às bolinhas de sabão que vão ligando os pensamentos vividos ao imaginado e percebemos outras ondulações…


Tudo fica vermelho, incendeia , a música fica mais intensa e parece que somos embalados ao futuro.

Tudo gira, tudo toca. E de repente, ao fogo retornamos, porque do caos da música se rompem os fogos de artifício, um enorme rastro de fumaça, clarão onde todos desaparecem…

Esfregando os olhos, retornamos a tempo de rever o gari que chega para recolher a cidade. Ao desmanchar a praça, volta a intensidade vermelha…Em nossa frente, o clarão das águas emboca o curso das sementes queimadas, recordando: incêndio em Londres!

E num apagão a cena nos desperta ao recomeço e como se tudo se reintegrasse, absorvemos o Fogo Verde Cristalino esparramando a memória real da rainha aquática à esperança de prosseguir Viagem: é Festival de Verão, há labaredas em Londres!
Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart





