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sublimações…

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Anais

Não me vejo nas coisas como elas são.

Quero ser um poeta tecido por carne
e livre de pontos.

Quero ser aquela nuvem atrás do pensamento.

Poema: Carmen Silvia Presotto, p. 47, Encaixes, Vidráguas.
Foto: Ricardo Hegenbart, outono em Londres- Green Park, 2009.

em Bloomsburry, neva e poemamos

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Faltaram as luvas roxas
ao fiel momento…

No entanto, sabemos:
que estátuas não falam,
apenas embalam os dedos a caminhar com a mente…

Em Bloomsburry neva,
e com Virginia Woolf, revivemos:
que olhar, caminhar, fotografar, escrever, é se imaginar por dentro…

e juntos poemamos, ora bolas!

Poema: Carmen Silvia Presotto
Foto: Ricardo Hegenbart

a porta

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THE DOOR



There is a door;
Every day a first door.
Through it a courtyard
Leads to arched gates
And forward to the road
Disappearing in forest.



Who will affirm the door?
Every day open the door?



Enshui, a Tea-master
Of de East explained:
We come before it
With breathless reverence
Bowing as before the King.
He wrapped the poem
In a sheath of silk
And put it in a box
Within a box,
Within a box…



The poem comes to me
As the day’s gift
A crystallization
Of its mystery.
See, the day is dead
But the poem lives.



J. Marinus


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A PORTA



Existe uma porta
todo o dia uma primeira porta.
Através dela um pátio
leva a portões arqueados
que diante a estrada desaparece em floresta.



Quem firmará a porta?
Cada dia abre uma porta?



Enshui
- Mestre do Chá -
do Oriente, explicou:
Nós, com uma reverência sem fôlego,
curvados ao Rei, chegamos diante ela.
Ele envolve o poema em seda
e o deposita numa caixa
dentro da caixa,
dentro da caixa…



O poema
- uma cristalização do seu mistério -
veio até a mim
feito um presente dos dias.
Veja, o dia está morto
mas o poema vive.



J. Marinus

Bufões da Água

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Instantes mudos, esses em que miramos as fotografias. São eles que nos falam…



Enquanto mentimos viver, o sonho das águas, a Poesia, transplante de almas, nos estende a mão.



Ilotopie!



Um caminho, um espetáculo sob as águas.



E sabemos:
Lagos
Oceanos
e Portos
sempre foram inspiração para o imaginário.



Todos ocupam lugares em nosso sonho.
Mas hoje, os Bufões da Água nos trazem uma visão espetacular desta vida úmida. Espelhada, através de fogos, surge pedalando a Rainha Aquática e sua Corte sob o Rio de Londres e como se estivessem saindo das páginas de um livro, as imagens vão escorrendo de nossos olhos.



Durante, algumas horas, precisamos esfregar os olhos para ver que não era sonho, era o Tâmisa cenário e palco do Festival das Águas.
E em suas margens, em seus retalhos, entre carros e caravanas
somos alguma costura desta flutuação
ponte do mudo instante, somos algum zumbido
a revirar os ouvidos a margem deste Verde Lago.



E



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Era sexta feira a noite em Docklands, o verão em Londres é sempre especial para eventos ao ar livre. Sentamos na grama frente ao lago, e já caia a noite quando no meio do lago surge navegando algo que parecia um Fiat 147, precariamente iluminado.



Começava Fous de Bassin no Greenwich + Docklands International Festival 2009.



O tema deste ano: Água.



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Leituras molhadas como iscas de vidas, fagulhas sob uma cama refletindo: mãe e filha, fogo e água a iluminar a leitura do lago em frente as Docas Londrinas, lugar onde navegações há muito vão e vem, feito árvores vivas, porto em labaredas, revelações de que um dia tudo era fogo, chamas para que uma cidade despertasse na águas sua história e legado…



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Nas águas está o início, está o espelho, está o tempo grão, rondando de bicicleta o caminho do Tâmisa
pesca
sombrinhas
bicicletas
navegações
momentos que, no lago em nossa frente, espelha toda a vida Londrina se desfolhando no jornal lido pelo bufão que chega junto com um gari público que chega junto com a mãe menina que chegam iluminados pelos postes suspensos para que a água seja mais do que um lago, seja uma cidade palafita navegando entre tempos.



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É noite e a cidade acorda.



A mãe menina do início retorna várias vezes a nossa frente, como querendo indicar em suas aparições, várias gestações e mudanças. Sua criança cresce. Alastrada a cidade, a menina mãe atravessa o rio, anunciando-nos que dali veio o progresso que, hoje, segue estendido das margens da docas ao Convent Garden, à Oxford Street…



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No ar, agora há muitos acordes, um caos sinfônico que nos desfragmenta para o inusitado. Esfregamos os olhos às bolinhas de sabão que vão ligando os pensamentos vividos ao imaginado e percebemos outras ondulações…



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Tudo fica vermelho, incendeia , a música fica mais intensa e parece que somos embalados ao futuro.



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Tudo gira, tudo toca. E de repente, ao fogo retornamos, porque do caos da música se rompem os fogos de artifício, um enorme rastro de fumaça, clarão onde todos desaparecem…



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Esfregando os olhos, retornamos a tempo de rever o gari que chega para recolher a cidade. Ao desmanchar a praça, volta a intensidade vermelha…Em nossa frente, o clarão das águas emboca o curso das sementes queimadas, recordando: incêndio em Londres!



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E num apagão a cena nos desperta ao recomeço e como se tudo se reintegrasse, absorvemos o Fogo Verde Cristalino esparramando a memória real da rainha aquática à esperança de prosseguir Viagem: é Festival de Verão, há labaredas em Londres!



Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart

Será que Mrs. Dalloway passou por aqui?

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“… Quando o jardineiro planta seus bulbos ou semeia sua grama, eles florescem de novo e alastram pelo solo sua relva verde e macia…”
Virginia Woolf

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Faz dois meses que acompanho as folhas de Londres se cobrirem com a nova estação. Ao chegar, tudo correspondia ao imaginado. Até abrir a janela do quarto e ser saudado pelo muro vivo, entremeado por uma trepadeira de rosas… O nome é dúbio, mas como veem essas rosas existem e violam qualquer olhar.

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Bem comigo aconteceu assim, fechei a janela e o jardim me perseguiu, pedindo um reconhecimento mais próximo.



Então, na semana passada, ainda com café da manhã na garganta, atravessei a porta da cozinha, rumo ao rastro da sombra Verde-Londres para chegar a alguns botões. Mais interessante que logo arrumei uns parceiros. Senti umas asas descerem do muro, subirem pela porta da cozinha, passar pela janela do meu quarto para me apresentarem a sua casa, era um ninho ainda em construção, logo acima dos quartos.

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É a primavera, pensei!!!



Voltando às rosas, notei por duas, três que estavam abertas como pareciam diferentes. Suas pétalas se evidenciam fortes, logo talvez esteja toda a espécie a celebrar híbridos encontros de aromas, raízes mescladas de cores. Ser assim despertado demonstra a gentileza do momento, feito um presente dos céus, do orvalho, essa moldura me caiu sob encomenda.

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Sim, rosas envasadas são lindas, no entanto soltas à inglesa na terra de Chaucer, Shakespeare, Keats, além de ser um patriotismo, como nos diz Virginia Woolf, trazem em suas pétalas renascimentos, transformações da rosa mãe à rosa Poesia: mutações.

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Por isso, que sigam destes outros os meus rastros!
A vida segue e este jardim, tornou-se meu cenário cotidiano, por onde meço o tempo, leio o ir e vir, converso, teço mais espaço…



O casal de passarinho que fez um ninho acima da janela do quarto, talvez tenha percebido isso bem antes… Eis a natureza comungando com a Vida.

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Por isso, seguir estes instantes me move, assim me falam os botões a desabrochar, assim me cantam os pássaros vizinhos, pois nos simples encontros está a beleza de qualquer humano encontro…

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Porém, tem dias que é mais do que uma estação, é pura celebração.
Num destes dias, acordei com o alarido dos meus amigos pássaros. Já estava a ponto de espantá-los, era cedo, mas antes mesmo de tomar café, abro a janela para ver o motivo de tanta festa, voos rasantes e tanto bater de asas, levo um susto:

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O que era verde enroseceu, o que estava fechado abriu-se.
- Mrs. Dalloway passou por aqui, gritei?!



O café que espere. Hoje registrarei o recanto que me acompanha, que agora me assombra a ser capturado. Começo a retratar o momento, conto 100 rosas, depois é impossível, os pássaros sentem a invasão das rosas, e tão assombrados quanto eu, rebatem suas asas até a janela do quarto e se aquietam, parecem também querer contemplar este momento único que penso não ser comum.
Pergunto a alguém que passa pelo portão, escuto:Yes!!!

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No entanto, com esse perfume mansinho, convidativo a chegar mais, naturalmente, acompanhados por pássaros em festa, não deve ser…
O jardim se multiplicou, nunca tinha visto algo assim: uma, duas, três… mais de cem rosas.

Hey, é primavera em Londres e, Mrs. Dalloway passeia por meu jardim.


Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart