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a porta

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THE DOOR



There is a door;
Every day a first door.
Through it a courtyard
Leads to arched gates
And forward to the road
Disappearing in forest.



Who will affirm the door?
Every day open the door?



Enshui, a Tea-master
Of de East explained:
We come before it
With breathless reverence
Bowing as before the King.
He wrapped the poem
In a sheath of silk
And put it in a box
Within a box,
Within a box…



The poem comes to me
As the day’s gift
A crystallization
Of its mystery.
See, the day is dead
But the poem lives.



J. Marinus


—————————–



A PORTA



Existe uma porta
todo o dia uma primeira porta.
Através dela um pátio
leva a portões arqueados
que diante a estrada desaparece em floresta.



Quem firmará a porta?
Cada dia abre uma porta?



Enshui
- Mestre do Chá -
do Oriente, explicou:
Nós, com uma reverência sem fôlego,
curvados ao Rei, chegamos diante ela.
Ele envolve o poema em seda
e o deposita numa caixa
dentro da caixa,
dentro da caixa…



O poema
- uma cristalização do seu mistério -
veio até a mim
feito um presente dos dias.
Veja, o dia está morto
mas o poema vive.



J. Marinus

Bufões da Água

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Instantes mudos, esses em que miramos as fotografias. São eles que nos falam…



Enquanto mentimos viver, o sonho das águas, a Poesia, transplante de almas, nos estende a mão.



Ilotopie!



Um caminho, um espetáculo sob as águas.



E sabemos:
Lagos
Oceanos
e Portos
sempre foram inspiração para o imaginário.



Todos ocupam lugares em nosso sonho.
Mas hoje, os Bufões da Água nos trazem uma visão espetacular desta vida úmida. Espelhada, através de fogos, surge pedalando a Rainha Aquática e sua Corte sob o Rio de Londres e como se estivessem saindo das páginas de um livro, as imagens vão escorrendo de nossos olhos.



Durante, algumas horas, precisamos esfregar os olhos para ver que não era sonho, era o Tâmisa cenário e palco do Festival das Águas.
E em suas margens, em seus retalhos, entre carros e caravanas
somos alguma costura desta flutuação
ponte do mudo instante, somos algum zumbido
a revirar os ouvidos a margem deste Verde Lago.



E



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Era sexta feira a noite em Docklands, o verão em Londres é sempre especial para eventos ao ar livre. Sentamos na grama frente ao lago, e já caia a noite quando no meio do lago surge navegando algo que parecia um Fiat 147, precariamente iluminado.



Começava Fous de Bassin no Greenwich + Docklands International Festival 2009.



O tema deste ano: Água.



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Leituras molhadas como iscas de vidas, fagulhas sob uma cama refletindo: mãe e filha, fogo e água a iluminar a leitura do lago em frente as Docas Londrinas, lugar onde navegações há muito vão e vem, feito árvores vivas, porto em labaredas, revelações de que um dia tudo era fogo, chamas para que uma cidade despertasse na águas sua história e legado…



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Nas águas está o início, está o espelho, está o tempo grão, rondando de bicicleta o caminho do Tâmisa
pesca
sombrinhas
bicicletas
navegações
momentos que, no lago em nossa frente, espelha toda a vida Londrina se desfolhando no jornal lido pelo bufão que chega junto com um gari público que chega junto com a mãe menina que chegam iluminados pelos postes suspensos para que a água seja mais do que um lago, seja uma cidade palafita navegando entre tempos.



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É noite e a cidade acorda.



A mãe menina do início retorna várias vezes a nossa frente, como querendo indicar em suas aparições, várias gestações e mudanças. Sua criança cresce. Alastrada a cidade, a menina mãe atravessa o rio, anunciando-nos que dali veio o progresso que, hoje, segue estendido das margens da docas ao Convent Garden, à Oxford Street…



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No ar, agora há muitos acordes, um caos sinfônico que nos desfragmenta para o inusitado. Esfregamos os olhos às bolinhas de sabão que vão ligando os pensamentos vividos ao imaginado e percebemos outras ondulações…



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Tudo fica vermelho, incendeia , a música fica mais intensa e parece que somos embalados ao futuro.



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Tudo gira, tudo toca. E de repente, ao fogo retornamos, porque do caos da música se rompem os fogos de artifício, um enorme rastro de fumaça, clarão onde todos desaparecem…



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Esfregando os olhos, retornamos a tempo de rever o gari que chega para recolher a cidade. Ao desmanchar a praça, volta a intensidade vermelha…Em nossa frente, o clarão das águas emboca o curso das sementes queimadas, recordando: incêndio em Londres!



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E num apagão a cena nos desperta ao recomeço e como se tudo se reintegrasse, absorvemos o Fogo Verde Cristalino esparramando a memória real da rainha aquática à esperança de prosseguir Viagem: é Festival de Verão, há labaredas em Londres!



Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart

Será que Mrs. Dalloway passou por aqui?

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“… Quando o jardineiro planta seus bulbos ou semeia sua grama, eles florescem de novo e alastram pelo solo sua relva verde e macia…”
Virginia Woolf

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Faz dois meses que acompanho as folhas de Londres se cobrirem com a nova estação. Ao chegar, tudo correspondia ao imaginado. Até abrir a janela do quarto e ser saudado pelo muro vivo, entremeado por uma trepadeira de rosas… O nome é dúbio, mas como veem essas rosas existem e violam qualquer olhar.

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Bem comigo aconteceu assim, fechei a janela e o jardim me perseguiu, pedindo um reconhecimento mais próximo.



Então, na semana passada, ainda com café da manhã na garganta, atravessei a porta da cozinha, rumo ao rastro da sombra Verde-Londres para chegar a alguns botões. Mais interessante que logo arrumei uns parceiros. Senti umas asas descerem do muro, subirem pela porta da cozinha, passar pela janela do meu quarto para me apresentarem a sua casa, era um ninho ainda em construção, logo acima dos quartos.

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É a primavera, pensei!!!



Voltando às rosas, notei por duas, três que estavam abertas como pareciam diferentes. Suas pétalas se evidenciam fortes, logo talvez esteja toda a espécie a celebrar híbridos encontros de aromas, raízes mescladas de cores. Ser assim despertado demonstra a gentileza do momento, feito um presente dos céus, do orvalho, essa moldura me caiu sob encomenda.

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Sim, rosas envasadas são lindas, no entanto soltas à inglesa na terra de Chaucer, Shakespeare, Keats, além de ser um patriotismo, como nos diz Virginia Woolf, trazem em suas pétalas renascimentos, transformações da rosa mãe à rosa Poesia: mutações.

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Por isso, que sigam destes outros os meus rastros!
A vida segue e este jardim, tornou-se meu cenário cotidiano, por onde meço o tempo, leio o ir e vir, converso, teço mais espaço…



O casal de passarinho que fez um ninho acima da janela do quarto, talvez tenha percebido isso bem antes… Eis a natureza comungando com a Vida.

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Por isso, seguir estes instantes me move, assim me falam os botões a desabrochar, assim me cantam os pássaros vizinhos, pois nos simples encontros está a beleza de qualquer humano encontro…

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Porém, tem dias que é mais do que uma estação, é pura celebração.
Num destes dias, acordei com o alarido dos meus amigos pássaros. Já estava a ponto de espantá-los, era cedo, mas antes mesmo de tomar café, abro a janela para ver o motivo de tanta festa, voos rasantes e tanto bater de asas, levo um susto:

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O que era verde enroseceu, o que estava fechado abriu-se.
- Mrs. Dalloway passou por aqui, gritei?!



O café que espere. Hoje registrarei o recanto que me acompanha, que agora me assombra a ser capturado. Começo a retratar o momento, conto 100 rosas, depois é impossível, os pássaros sentem a invasão das rosas, e tão assombrados quanto eu, rebatem suas asas até a janela do quarto e se aquietam, parecem também querer contemplar este momento único que penso não ser comum.
Pergunto a alguém que passa pelo portão, escuto:Yes!!!

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No entanto, com esse perfume mansinho, convidativo a chegar mais, naturalmente, acompanhados por pássaros em festa, não deve ser…
O jardim se multiplicou, nunca tinha visto algo assim: uma, duas, três… mais de cem rosas.

Hey, é primavera em Londres e, Mrs. Dalloway passeia por meu jardim.


Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart

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Foto: Ricardo Hegenbart, Mãe Cisne, Hyde Park, 2009.

todo dia é dia de livros e bardos, Shakespeare com Vidráguas desde Londres…

Todo o mundo é um palco,
e todos os homens e mulheres são simplesmente atores:
Eles têm suas entradas e saídas,
e um homem, em sua vez, representa muitos papéis
(…)
William Shakespeare

Todos já estamos carecas de saber, mas não custa repetir que William Shakespeare, geralmente considerado o maior dramaturgo dos tempos modernos, nasceu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra no dia 23 de abril de 1564, morrendo no mesmo dia e lugar em 1616. No entanto, também sabemos que ele vivia de percorrer a Inglaterra em caravanas para difundir sua arte e poesia e que ao desembocar em Londres, fundou seu teatro de arena, uma escola verdadeira, para que seus versos e dramas não coagulassem.

E conseguiu!

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Domingo, dia 19 de abril, também dia do Índio, iniciaram as comemorações do dia mundial do Livro em vários lugares do mundo, e Vidráguas pode conferir a magia do bardo desde Londres, onde Sonetos abriram a nova temporada de sua peças no Shakespeare Globe Theatre, onde Vidráguas conseguiu um espaço para além de saltimbanco também de registro fotográfico e participação a este evento que reúne ainda muitas caravanas para ler, interpretar e recitar os Sonetos de Shakespeare. Vivas, caravanas vivas!!!

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O início do encontro, foi para comemorar o aniversário de Shakespeare, cujo evento era um encontro de despedida e reinício de nova temporada, onde a dramaturgia seguirá todo ano e pela fila já se pode saber que a arena estará lotada…

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Na comemoração de aniversário, não podia faltar cantatas, canções medievais, que entoadas a estilo nos remete à Época Elizabeteana, era de Shakespeare, ilustrada por roupas e cenários, para além de Romeu e Julieta a mais peças, já que ali, também se podia observar e aprender mais sobre a confecção de seus livros.

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Legal a seção escrevendo recados:
Escrevo uma nota de amor para uma pessoa querida, dizer que diz o quanto o amor, o interagir, a platéia era e é importante na vida deste Bardo, porque recadinhos e poemas, eram as expressões para se deixar o coração junto a mais versos e assim poder seguir conversando.

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Imaginem que por minutos, muda o Cenário e chega-se a Tróia. Sim, meus senhores uma encenação e uma aula sobre Tróia, onde mais uma vez percebemos que nada se cria, todo se transforma e que os Clássicos amam os clássicos e lêem e repetem e ensinam. Então, neste dia, pode se dizer que Homero esteve com Shakespeare e quem ganha é a tragédia, pois na encenação Helena segue tendo um papel de mercadoria, porém mais simbólica, porque o corpo do combate estava atravessado por sua memória em palavras…
E imaginem mais, saibam vocês que as mulheres eram melhores lutadoras que os homens em Tróia, segundo a lenda contada hoje?!

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Bem, depois desta viagem de ir e vir, chega-se ao Batendo Recorde, cujo mote e trabalho era bater o recorde mundial de maior números de pessoas a declamar Sonetos de Shakespeare. E isso foi durante o dia todo… Assim que souber o resultado passaremos!!!

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Vidráguas participou, acompanhem:

XXIX

When in disgrace with fortune and men’s eyes
I all alone beweep my outcast state,
And trouble deaf heaven with my bootless cries,
And look upon myself, and curse my fate,
Wishing me like to one more rich in hope,
Featured like him, like him with friends possessed,
Desiring this man’s art, and that man’s scope,
With what I most enjoy contented least;
Yet in these thoughts my self almost despising,
Haply I think on thee, and then my state,
Like to the lark at break of day arising
From sullen earth, sings hymns at heaven’s gate;
For thy sweet love remembered such wealth brings
That then I scorn to change my state with kings.

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Logo e junto a tanta poesia, memória e vivência foi possível saber mais das roupas de teatro da Época Elisabetana, onde anáguas, corseletes e muitos panos tiraram de baixo dos panos o jogo do poder. Corseletes amarrados atrás era para quem tinha dinheiro. Na frente, eram para as próprias amas que tinham pouco tempo à amarrações, assim como colocar almofadas na bunda, podia pesar mais, dar um caminhar mais vagaroso, calmo, ritmado e contrabalanceado pelo peso o que distinguia quem o tivesse como sinônimo de aBUNDÂNcia.

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Depois da roupas chega-se a mais atuações e como se fossem Shakespeare os atores e participantes que ali estiveram, tiveram que interagir, implicar-se, porque essa era a diversão da tragédia, sentir- nos calos dos outros, para rir, chorar, amar… A esses atos, chamaram os Insultos! que, se formos ao pé da letra, mostra o quanto a implicância é importante na Tragédia desde os Gregos à Shakespeare. Sim, e isso até a Rainha Elizabeth proclamava, indo ao Teatro como uma cidadã dos Comuns.

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Então neste dia, mais do que mostrar o texto, o mais importante foi a vivência Shakesperiana e poder compartilhar isto nos dia de hoje é algo rico, muito rico, porque além de aprendermos como era composto um soneto, com 14 versos, também se pode recitar o que se escrevera e quem não tinha o soneto, recebia ajuda para isso.

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E quem não quisesse conversar, poderia colocar fones de ouvido e Escutar Shakespeare.

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Fazer muito barulho por nada, por todos com rolos na cabeça e por fim, dar adeus ao dia e passar pelo Portão de Rosas, um teto unindo céus e terras a mais leitores, a mais memórias, a mais cultura a esta OBRA VIVO e ABERTA que é William Shakespeare.

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Vidráguas a quatro mãos, 21 de abril de 2009, desde Londres a Porto Alegre-Brasil.

Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart

Para saber mais:

Leiam Por que Ler Shakespeare de Barbara Heliodora e também suas Outras Obras Traduzidas. E também assistam o filme Shakespeare Apaixonado entre tantos outros.