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retornando à casa com Quintana

Gestos
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Foto: Ricardo Hegenbart, momentos, Bloomsburry 2009.

A mão que parte o pão
a mão que semeia
a mão que o recebe
- como seria belo tudo isso não fossem
os intermediários!

Poema:Mario Quintana, A Vaca e o Hipogrifo, Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros.

psiu, atenção, foto premiada

Paz

Os caminhos estão descansando.
foto-premiada

Foto de Vidráguas, ganhadora do concurso Postcards from the Park 2009 – Categoria Adulto Southwark Park , Londres – 2009.

Poema de Mario Quintana, p.216, A Vaca e o Hipogrifo, Coleção Folha – Grandes Escritores Brasileiros.

aos 103 aniversários de Mario Quintana, Vidráguas!

Impossível escolha
a Mario Quintana

Ora bolas, como dizia o poeta…
Se escolhesse o dia de minha morte
seria um ensolarado domingo de outono.

Alegre, morno, brando, aninhado a folhas de plátanos
douradas, atapetando o chão que me abrigaria.

Se escolhesse o dia de minha morte
seria um esvoaçante cobertor sem dor por partir.

Um dia em que os pássaros e as borboletas
brincassem no céu.
Um dia em que o sol vibrasse por novos horizontes.
Um dia feito piquenique com toalha xadrez
cesto de vime e cálices de vinho.
Um dia em que o findar não encontrasse a noite.
Um eterno dia…

Se escolhesse o dia de minha morte
seria um dia trocado.

Um dia impossível de escolhas.
Talvez um Domingo chuvoso, abafado.
Ou uma Sexta-Feira que me acordasse no Domingo.
Cristo!
Quem sabe não morro…
Ora bolas!

Carmen Silvia Presotto, pag.50, Dobras do Tempo.

ao dia do amigo, Mario Quintana

cartier_bresson

AH, SIM, A VELHA POESIA…

Poesia a minha velha amiga…
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma…
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas…)
O primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmera de horrores.
E os grilos?
Não estão ouvindo, lá fora, os grilos?
Sim, os grilos…
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões um lápis verde um retrato
amarelecido um velho ovo de costura os teus pecados
as reivindicações as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger de dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos…
Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
parece que nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.

Mario Quintana, A Vaca e o Hipogrifo, pg.200 e 201, Coleção Folha- Grandes Escritores Brasileiros

jardim interior

Jardim Interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mario Quintana, Rua dos Cataventos & Outros Poemas, pag.132,Editora L&PM POCKET.