Indizível é uma palavra que me fascina. Sempre me perguntei até onde vai o poder da palavra, tudo que existe pode ser dito? Só existe o que é dito? Pode a palavra conter toda a verdade do que pensamos e sentimento ao longo de nossa experiência? São questões que me dominas quando inicio a escrita de algum poema, pois sei que a palavra está sempre a mercê da interpretação dentro do contexto no qual ela está sendo lida e por quem a lê. Será mesmo que tudo é linguagem?
Em suas cartas a um jovem poeta Rilke diz: ” As coisas em geral não são tão fáceis de aprender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível,realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou.”¹ Hoje parece-me que tudo é linguagem para alguns grupos, a palavra ganhou um pedestal. A reflexão sobre a palavra chegou a um ponto em que muito tem a crença de que só existe o que é dizível. Porem nem tudo que é dizível existem e nem tudo que existe cabe em uma palavra. Um exemplo eu posso dizer uma casa voando, mas ela não existe- se existe é só no pensamento- mas na realidade nunca. Do mesmo modo há sentimentos que não conseguimos exprimir em sua totalidade, por mais que eu saiba o que é o amor, o tempo, a morte a vida, as palavras jamais conseguiram dizer o todo destas realidades.
…a palavra também é cura, alguém me disse.
corri, pois, ao dicionário, para desvendar
todos os sentidos que tal verbo possa sustentar.
cura, além de vigário em alguma aldeia, povoado
é processo de tratamento para se apurar
para curtir, secar, enfim, algo melhorar
como tornar, no entanto, uma palavra curativo?
como colocá-la direto sobre a ferida?
eis que naquela madrugada, matutando
ouça uma resposta também em verso
de alguém que tinha noção do que dizia:
à palavra boa não basta estar alinhada
bem vestida, segundo a gramática regular
pois além da fina vestidura a revestir
ou da embalagem com o belo a estampar
há sentimentos que precisam se fazer sentir,
acionado pela vontade de acolher, de servir…
com estes últimos versos ainda vagueando
pus-me a me lembrar dos vínculos que se faz
do verbo em ação, cordial, com o algo mais
que poucos desejam, ousam expressar
lembrei-me de almofada, de cetim, de aconchegar
de ombro amigo, de fino trato, gentileza
mesmo de duras verdades , ditas com jeito
que curam se faladas com delicadeza…
não importará pois discutir ou nos debatermos
nos embaraços em torno da sintomatologia
pois ao conhecido, ao familiar ou amigo
pouco lhe dirá questões de geografia…
próximos ou distantes estejam eles
o certo é que as palavras que correm frouxas,
pelo correio, emeio ou qualquer canal
há de tocá-los, livrando-os de muito mal –
doenças imaginárias ou reais, seja o que for
de coceiras que pó-de-mico mental traz
a preocupações que o verbo amigo desfaz…
assim encerro este poema, conclamando
os amigos que de prosa e verso vissem se expressando:
há feridas a se curar aqui tão perto!
“(…) Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia…
A impura linguagem dos homens” (Mário Quintana).
Nítida ou não, toda impressão dada constitui um dado. A fala impressa, diverso lado, o pensamento, cuidado, peça adaptável desmonta e a princípio dificilmente remonta. Num dado contexto vasto sentido, difícil o texto, subtexto a mente aponta.
Toda via é possível ler. Transferidas, todavia, expostas, sob outra luz são lidas pesadas projeções às pensadas palavras postas. Salvas em tintas fortes e em caixa alta saltam a vista e o que está claro se mostra. Por pouco tempo hoje, entrementes, a salvo, entrelinhas amarradas estão em caixas de entrada e saída, e-mails, meio soltos, dados recados inteiros que partem rumo adverso a diversas rotas.
No passado, cunhadas de próprio punho cartas eram cuidadosamente remetidas às caixas postais ou metidas pulsando ainda por debaixo da porta e depois de lidas as falas, impulso: guardadas mensagens eram escritas de volta. Na pressa rascunhadas agora, mensagens portam vagas verdades às pressas impressas e vagam, não voltam, para sempre jogadas, dispostas.
Concordo quando Chico Buarque disse que “agora posso cuidar da poesia”, pois, ela trata a palavra em seu momento mais inspirado, no inteligente jogo de significado e significante.
O brasileiro desvenda os segredos das palavras através da poesia, comunicando-se com a linguagem da liberdade, podendo criar novos ideais, voar, sonhar e até mesmo vivenciá-la.
POESIA É VIDA! Ela nos brinda com palavras mágicas. Então, pergunto: qual é o segredo que elas guardam? Lêdo Ivo responde: “A poesia é um segredo / feito de êxtase e medo / que não confio a ninguém – nem a mim mesmo”.