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corpos híbridos

Corpos poema&prosa
por Berenice Sica Lamas

3Salvador-Dali-Leda-Atomica

Corpos em exercício de vida, de emoção, de afetos, de dolorimentos. Corpos em delírio, em dança, em sofrimento, feridos, magoados, ultrajados, corpos em paz e em guerra pensar letras/ sentir palavras/ a alma cheia de dedos (Alice Ruiz).

Corpos comunicantes. Corpos amando, em transcendência, filosofando, brincando, corpos em grandes bolsões de indiferença. Corpos em compromisso, em oferta, comprados em liquidação, vendidos a preço de banana. / tiro o corpo da roupa (Adélia Prado).

Corpo bagaço, extenuado. Corpo doado ao trabalho.

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poema

O poema é uma coisa que não tem nada dentro
Ferreira Gullar

Henri Matisse

O poema é uma coisa sem nada dentro
somente eu
ausente
emprestada voz
doado coração.

Berenice Sica Lamas, p.29, Inventário de Ausências, MOVIMENTO.

brumas do Tâmisa

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Foto: Ricardo Hegenbart

Dia de sol
fenda entre céu e terra
raios de verão
feito postigos de outono
no Tâmisa…

Carmen Silvia Presotto

deus e a árvore

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Foto: Ricardo Hegenbart.



Deus e a Árvore


Em sua arrogância as pessoas imaginam representar

a imagem e semelhança do Supremo Criador.

Porque em um ser tão mesquinho iria ele se espelhar

se tantas outras formas foram criadas, isentas de tal valor.


Veja o exemplo da árvore que não se propõe a representar nenhuma imagem

e altruísta na sua essência descarta toda e qualquer vaidade,

a fornecer abrigo, alimentos e utensílios sem cobrar dízimos ou
impostos,

e sem distinguir raça ou credo, jamais demonstrando má vontade.


Serve a todos do mesmo jeito sem qualquer discriminação,

protege toda forma de vida sem nunca cogitar favor,

completamente indiferente aos complexos de inferior ou superior

não necessita de conceitos para se enfeitar com flor.


Mesmo alguém que a ignore está a usufruir dos seus frutos,

e ela desconhece balança para conjugar o valor do amor.

Não carrega a pretensão de em apenas uma só árvore tudo suprir,

cada uma tem sua função na natureza, nada é soberbo em seu dispor.


Consumismos e imediatismos não alteram o seu ciclo e desenvolvimento,

dispensa qualquer pedestal, pois do chão é que provém o seu vigor.

Sem maiores alardes é um pilar vital de nossas existências,

sustentando o corpo e fortalecendo a alma, sem requerer nenhum louvor.


Américo Conte

cogumelos

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Foto: Jason Evans, Smash Babylon Mind Control, 2005.
Estilo: Simon Foxton


Cogumelos

Varando a noite, com
Brandura, brancura,
Silêncio absoluto,

Do artelho aos
narizes
Tomamos posse da
argila
E do ar adquirido.

Ninguém nos avista,
Nos detém, nos
agride;
Evadem-se os
grãozinhos.

Punhos suaves
insistem
Em brandir agulhas,
O recheio folhudo,

Até o calçamento.
Nossos martelos,
marretas,
Sem olhos e ouvidos,

De voz nem um fio
Alargam as gretas,
Ombro abrindo
fendas. Nós

Vivemos a pão e água,
Migalhas de sombra,
Com modos afáveis,

Inquirindo pouco ou
nada.
São tantos de nós!
São tantos de nós!

Somos estantes,
somos
Mesas, somos
humildes,
Somos comestíveis,

Aos trancos e
arranques
Apesar de nós
mesmos
Nossa espécie se
expande:

Pela manhã, havemos
De herdar o planeta.
E nosso pé porta
adentro.

Sylvia Plath

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