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na rosa… há memórias escritas

A ROSA ENTRE IGUAIS



O coração bate outonos
Nunca mais, diz ele
A transbordar folhas
Em dilúvio, na roseira
A rosa suporta tudo
Ventos e tempestades
Em seus verdes ombros

Em seu despetalar
outra flor em botão
que se abre primaveril
Em terra fértil novos brotos
germinam de sol a sol
num eterno resplandecer
da natureza

Há memórias escritas
Em sentimentos raros
Como o sol que aquece
Pétalas soltas no cacho
Do que se chama rosa
Seu todo algo palpável
Linda canção de carmins

Violetas e jasmins,
em conviivênncia harmônica
no jardim do éden,
paraíso dos amantes
Terra que produz frutos
colhidos com mãos de afeto

Dá até para acreditarmos
Num romance de palavras
Ditas ao acaso para a rosa
Escoltada por outras flores
Mágico jardim da perfeição
Ao brilhar além dos botões
Em tonalidades arrebatadas

Ou quem sabe num buquê
ofertado à amada
de rosas encarnadas
ou de flores silvestres
numa declaração de amor natural
adornando um belo jarro
até desfolharem suas pétalas

Poema a 4 mãos de Beto Palaio e Ianê Mello

Leiam mais poemas nos blog:
http://dialogospoeticosimello.blogspot.com/

Será que Mrs. Dalloway passou por aqui?

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“… Quando o jardineiro planta seus bulbos ou semeia sua grama, eles florescem de novo e alastram pelo solo sua relva verde e macia…”
Virginia Woolf

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Faz dois meses que acompanho as folhas de Londres se cobrirem com a nova estação. Ao chegar, tudo correspondia ao imaginado. Até abrir a janela do quarto e ser saudado pelo muro vivo, entremeado por uma trepadeira de rosas… O nome é dúbio, mas como veem essas rosas existem e violam qualquer olhar.

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Bem comigo aconteceu assim, fechei a janela e o jardim me perseguiu, pedindo um reconhecimento mais próximo.



Então, na semana passada, ainda com café da manhã na garganta, atravessei a porta da cozinha, rumo ao rastro da sombra Verde-Londres para chegar a alguns botões. Mais interessante que logo arrumei uns parceiros. Senti umas asas descerem do muro, subirem pela porta da cozinha, passar pela janela do meu quarto para me apresentarem a sua casa, era um ninho ainda em construção, logo acima dos quartos.

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É a primavera, pensei!!!



Voltando às rosas, notei por duas, três que estavam abertas como pareciam diferentes. Suas pétalas se evidenciam fortes, logo talvez esteja toda a espécie a celebrar híbridos encontros de aromas, raízes mescladas de cores. Ser assim despertado demonstra a gentileza do momento, feito um presente dos céus, do orvalho, essa moldura me caiu sob encomenda.

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Sim, rosas envasadas são lindas, no entanto soltas à inglesa na terra de Chaucer, Shakespeare, Keats, além de ser um patriotismo, como nos diz Virginia Woolf, trazem em suas pétalas renascimentos, transformações da rosa mãe à rosa Poesia: mutações.

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Por isso, que sigam destes outros os meus rastros!
A vida segue e este jardim, tornou-se meu cenário cotidiano, por onde meço o tempo, leio o ir e vir, converso, teço mais espaço…



O casal de passarinho que fez um ninho acima da janela do quarto, talvez tenha percebido isso bem antes… Eis a natureza comungando com a Vida.

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Por isso, seguir estes instantes me move, assim me falam os botões a desabrochar, assim me cantam os pássaros vizinhos, pois nos simples encontros está a beleza de qualquer humano encontro…

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Porém, tem dias que é mais do que uma estação, é pura celebração.
Num destes dias, acordei com o alarido dos meus amigos pássaros. Já estava a ponto de espantá-los, era cedo, mas antes mesmo de tomar café, abro a janela para ver o motivo de tanta festa, voos rasantes e tanto bater de asas, levo um susto:

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O que era verde enroseceu, o que estava fechado abriu-se.
- Mrs. Dalloway passou por aqui, gritei?!



O café que espere. Hoje registrarei o recanto que me acompanha, que agora me assombra a ser capturado. Começo a retratar o momento, conto 100 rosas, depois é impossível, os pássaros sentem a invasão das rosas, e tão assombrados quanto eu, rebatem suas asas até a janela do quarto e se aquietam, parecem também querer contemplar este momento único que penso não ser comum.
Pergunto a alguém que passa pelo portão, escuto:Yes!!!

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No entanto, com esse perfume mansinho, convidativo a chegar mais, naturalmente, acompanhados por pássaros em festa, não deve ser…
O jardim se multiplicou, nunca tinha visto algo assim: uma, duas, três… mais de cem rosas.

Hey, é primavera em Londres e, Mrs. Dalloway passeia por meu jardim.


Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart