O amor, segundo Fernando Andrade, “é sempre o motivo mais profícuo a inspirar os poetas.” E ao meu lado tenho Pedro Du Bois, o poeta que escreveu o Livro da Tânia, em homenagem ao nosso amor. São poemas que marcam momentos importantes e dão voz ao nosso relacionamento. Costumo dizer que para amar é preciso receber amor.
“Não escrevo / Tânia / escrevo tânias / tantos são os anos / compassados //
junto as letras / o nome leve / solta o perfume / adocicado // sempre é o início /
onde os corpos se confundem / nas descobertas // no final da tarde / na tranqüilidade da casa / olho-te / como fosse o dia / do primeiro olhar entrelaçado. ”
“… A dureza de um verso, poeta,/ é a maciez do seu reverso.” (Clauder Arcanjo)
Hoje em dia, aparentemente, é possível ver através do verso e reverso a aproximação que dá sentido à vida e à arte. Recriar o mundo através do verso é alcançar a liberdade, algo que se constrói com o conhecimento e a criatividade, tendo a força indomável da inspiração.
Como Clarice Lispector escreveu, ”Eu te invento, ó realidade”. A inovação reversa diz respeito à introdução de novidades onde tudo pode ser dito dentro de uma forma, fosse o poema o rastro possível da poesia.
Na construção do gesto temos a representação do pedreiro como fonte primordial da vitalidade em quem podemos acreditar como possibilidades da importância das mãos.
“Tenho a terra sob as unhas / o que seria meu / e de todos…// – o que seria se a terra estivesse / sob as unhas // a as mãos calejadas” (Pedro Du Bois)
“Quando a primeira palavra / romper a mortalha da página, / a luz escapará…”
(Francisco Alvim)
É inevitável lembrar que a língua é patrimônio cultural. Que a língua é caráter. Ela une e identifica um povo; foi muito mais importante do que se pensa na história dos descobrimentos. Relembro que o domínio de norma culta é a marca da diferenciação social, sinal de boa formação e inteligência.
Segundo Luís Fernando Veríssimo, “o caráter de um povo decorre da sua língua” e, para Pedro Du Bois, “Livros //… / ele não faz parte da vida: / exige atenção, capricho, conhecimento / maior que o simples passar de olhos”.
Folheando a revista, li: “Bibliotecas não se restringem ao espaço em que se instala a coleção de livros… elas também se transformam em eficientes elementos decorativos…”
Essa sugestão é insensata, porque a criação de uma biblioteca predispõe deixar os livros expostos nas prateleiras, para facilitar o manuseio. O ideal é tê-los para lê-los e não para decorar o ambiente. Entretanto, por muitas vezes, ficamos reduzidos a ler e ouvir esse tipo de tragédia. É preferível transformar essa tragédia em suposto olhar, com profundidade, num passe de gestos e sentidos, onde historicamente permaneceria a alegria da leitura e o mistério das palavras, no hábito como fórmula simples e preciosa.
Pedro Du Bois expressa que, “Na biblioteca / os livros se espreitam / pelas lombadas //…as palavras encadernadas / encerradas em cada volume / encarceradas em parágrafos / circunscritos // nas bibliotecas / a vida nos espreita / em cada volume/ que deixamos de ler.”
Pergunto se é possível, para quem gosta de ler, viver num mundo sem livros. A resposta está na biblioteca que reúne as obras e é onde encontro o que procuro: emoção.