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pensando a Poesia com Wislawa Szimborska

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“ Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser evidentemente publicados, lidos e compreendidos, mas nada fazem, ou nada de significativo, para que no dia-a-dia possam se destacar entre as outras pessoas. E ainda não muito tempo atrás, nos primeiros dez anos de nosso século, os poetas gostavam de chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Unicamente para encher os olhos do público. Chegava o momento em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar – em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos – a folha de papel ainda em branco. Pois, no final é isso que, de fato conta.
(…)

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nada acontece duas vezes

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Foto: Beth Moon, Sojourn of the Songbirds.

Nada acontece duas vezes
Nic dwa razy

Nada acontece duas vezes
e nem acontecerá. Por este motivo
nasceremos sem prática
e morreremos sem rotina.

Mesmo que fossemos os mais estúpidos
alunos do mundo na escola,
não vamos repetir
nenhum inverno, nenhum verão.

Nenhum dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos do mesmo jeito,
duas mesmas trocas de olhar.

Ontem, que alguém pronunciou
teu nome alto perto de mim,
foi como se uma rosa me tivessem
atirado por uma janela aberta.

Hoje, que estamos juntos,
virei o rosto para a parede.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor? Talvez uma pedra?

Por que tu, hora ruim,
te confundes com um medo desnecessário?
Se és – então tens de passar.
Se passarás – então será bela.

Sorridentes, abraçados,
tentaremos buscar um acordo,
mesmo que sejamos diferentes
como dois pingos de água limpa. *¹

Wisława Szymborska, Tradução de Tiago Halewicz, Memória Cultural Polonesa.

Amor à primeira vista

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Foto: Henri Cartier-Bresson, Boulevard Diderot, 1969

Ambos estão convencidos
De que foi um sentimento súbito que os uniu.
Linda é uma certeza assim,
mas a incerteza é ainda mais linda.

Acham que por não
terem se conhecido antes
nunca houve nada entre eles.
E o que diriam as ruas, escadas, corredores,
pelo quais há muito tempo poderiam cruzar?

Gostaria de perguntar-lhes
Se não lembram –
na porta giratória
um dia cara a cara?
um “com licença” em meio à multidão?
A voz “engano” no telefone?
- mas conheço sua resposta.
Não, não lembram.

Ficariam muito espantados em saber
que desde muito tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não totalmente preparado
a transformar-se para eles num destino,
aproximava-os e os afastava,
cortava-lhes o caminho
e abafando a gargalhada
saltava para o lado.

Houve sinais, signos,
mas algo ilegível.
É possível que três anos atrás
ou na terça-feira passada
uma certa folha tenha voado
de um ombro para outro?

Houve algo perdido e recolhido.
quem sabe se já não uma bola
nos jardins da infância?

Houve maçanetas e campainhas,
em que antes
o toque se pôs no toque.
As malas lado a lado no depósito da bagagem.
Talvez, numa certa noite, o mesmo sonho
apagado imediatamente depois de acordar.

Entretanto cada princípio
é apenas uma continuação
e o livro de acontecimentos
está sempre aberto no meio.

Poema de Wisława Szymborska, tradução de Tiago Halewicz, Memória Cultural Polonesa