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Nos Passos de Mrs. Dalloway

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Em Londres, quando os plátanos largam suas folhas ao vento e dobram suas raízes ao tempo, outona… e neste desfolhar de momentos, trocamos as estações, lambuzados pelo morno hálito de um lindo sol literário: Clarissa Dalloway.

Clarissa Dalloway é a protagonista e o título do Romance de Virginia Woolf, publicado em 1925, que nos eventos de um único dia nos apresenta a história de uma Senhora da alta burguesia londrina, que por aqui nos chegou traduzido através das mãos de Mario Quintana, driblando o próprio e o nosso tempo com o compasso do relógio,.

E que relógio: O Big Ben!
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em Bloomsburry, neva e poemamos

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Faltaram as luvas roxas
ao fiel momento…

No entanto, sabemos:
que estátuas não falam,
apenas embalam os dedos a caminhar com a mente…

Em Bloomsburry neva,
e com Virginia Woolf, revivemos:
que olhar, caminhar, fotografar, escrever, é se imaginar por dentro…

e juntos poemamos, ora bolas!

Poema: Carmen Silvia Presotto
Foto: Ricardo Hegenbart

Será que Mrs. Dalloway passou por aqui?

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“… Quando o jardineiro planta seus bulbos ou semeia sua grama, eles florescem de novo e alastram pelo solo sua relva verde e macia…”
Virginia Woolf

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Faz dois meses que acompanho as folhas de Londres se cobrirem com a nova estação. Ao chegar, tudo correspondia ao imaginado. Até abrir a janela do quarto e ser saudado pelo muro vivo, entremeado por uma trepadeira de rosas… O nome é dúbio, mas como veem essas rosas existem e violam qualquer olhar.

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Bem comigo aconteceu assim, fechei a janela e o jardim me perseguiu, pedindo um reconhecimento mais próximo.



Então, na semana passada, ainda com café da manhã na garganta, atravessei a porta da cozinha, rumo ao rastro da sombra Verde-Londres para chegar a alguns botões. Mais interessante que logo arrumei uns parceiros. Senti umas asas descerem do muro, subirem pela porta da cozinha, passar pela janela do meu quarto para me apresentarem a sua casa, era um ninho ainda em construção, logo acima dos quartos.

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É a primavera, pensei!!!



Voltando às rosas, notei por duas, três que estavam abertas como pareciam diferentes. Suas pétalas se evidenciam fortes, logo talvez esteja toda a espécie a celebrar híbridos encontros de aromas, raízes mescladas de cores. Ser assim despertado demonstra a gentileza do momento, feito um presente dos céus, do orvalho, essa moldura me caiu sob encomenda.

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Sim, rosas envasadas são lindas, no entanto soltas à inglesa na terra de Chaucer, Shakespeare, Keats, além de ser um patriotismo, como nos diz Virginia Woolf, trazem em suas pétalas renascimentos, transformações da rosa mãe à rosa Poesia: mutações.

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Por isso, que sigam destes outros os meus rastros!
A vida segue e este jardim, tornou-se meu cenário cotidiano, por onde meço o tempo, leio o ir e vir, converso, teço mais espaço…



O casal de passarinho que fez um ninho acima da janela do quarto, talvez tenha percebido isso bem antes… Eis a natureza comungando com a Vida.

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Por isso, seguir estes instantes me move, assim me falam os botões a desabrochar, assim me cantam os pássaros vizinhos, pois nos simples encontros está a beleza de qualquer humano encontro…

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Porém, tem dias que é mais do que uma estação, é pura celebração.
Num destes dias, acordei com o alarido dos meus amigos pássaros. Já estava a ponto de espantá-los, era cedo, mas antes mesmo de tomar café, abro a janela para ver o motivo de tanta festa, voos rasantes e tanto bater de asas, levo um susto:

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O que era verde enroseceu, o que estava fechado abriu-se.
- Mrs. Dalloway passou por aqui, gritei?!



O café que espere. Hoje registrarei o recanto que me acompanha, que agora me assombra a ser capturado. Começo a retratar o momento, conto 100 rosas, depois é impossível, os pássaros sentem a invasão das rosas, e tão assombrados quanto eu, rebatem suas asas até a janela do quarto e se aquietam, parecem também querer contemplar este momento único que penso não ser comum.
Pergunto a alguém que passa pelo portão, escuto:Yes!!!

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No entanto, com esse perfume mansinho, convidativo a chegar mais, naturalmente, acompanhados por pássaros em festa, não deve ser…
O jardim se multiplicou, nunca tinha visto algo assim: uma, duas, três… mais de cem rosas.

Hey, é primavera em Londres e, Mrs. Dalloway passeia por meu jardim.


Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart

Escrevendo com Virginia Woolf

O Leitor Comum de Virginia Woolf, seleção, tradução e notas de Luciana Viegas, editado pela GRAPHIA, através de ensaios, comentários e críticas, aparentemente simples… E digo aparente, porque a leveza de uma escritura que , em suas entrelinhas, vai nos engravidando de idéias, sugestões, fatos, opiniões, ofício e trabalho, é Pura Criação.

Virginia Woolf, maestra fértil, além de nos torna humanos por demais humanos. Com papel, tinta e sem luvas, borra-nos feito frestas de seus olhares, para que juntos passeemos por seus pensamentos, cuja maior educação está, justamente, em tentar não classificar, menos ainda criticar. Simplesmente, busca trazer questionamentos, dentre vários capítulos, cujo final é: Como se deve ler um livro?
E para isso, temos várias respostas, várias indicações nos jornais, vários formadores de opiniões, várias listas de mais vendidos, vários preços em questões… No entanto, ela nos coloca “ … o único conselho, de fato, que uma pessoa pode dar a outra de ler é não seguir conselho algum, seguir seus próprios instintos, usar suas próprias razões, chegar às suas próprias conclusões…”

Concordar com isso, é chegar à independência que é a qualidade mais importante que um leitor pode ter, porque em cima de que, ou quem formulamos leis sobre livros?

E segue dizendo: “ admitir autoridades, mesmo austeramente engomadas e togadas, em nossas bibliotecas e deixá-las nos dizer como ler, o que ler, que valor atribuir ao que lemos, é destruir o espírito de liberdade que é o oxigênio desses santuários. Em todos os demais lugares poderemos ser constrangidos por leis e convenções – ali não… Não podemos esbanjar nossos poderes, desavisados e ignorantes, esguichando água em metade da casa para regar uma simples roseira, devemos exercitá-los… ler um romance é uma tentativa de produzir alguma coisa tão planejada e sob controle quanto um edifício, mas as palavras são mais impalpáveis do que tijolos; ler é um processo lento e mais complexo que ver e…talvez a maneira mais rápida de compreender este processo não seja ler, mas escrever…”

Portanto, seguimos acreditando junto com Virginia Woolf que enfrentar nossas próprias experiências com os perigos e dificuldades das palavras, possa gerar grandes trabalhos, biografias, romances, novelas, respostas inumeráveis a tantas indagações que nos levem a seguir traçando relações, não somente entre pessoas, mas também entre a natureza e o destino que roda entre mundos.
Pode ser uma carta, pode ser uma frase, pode ser uma crônica, pode ser uma imagem, pode ser um poema, mas ao longo deste caminho sempre estará um encontro:um desejo de aproximação pelo desejo de interromper a exploração de nuances menores do caráter humano e, onde poder seja desfrutar da mais pura ficção, poderá caber o VIVER, um caso a ser escrito por todos, ou não?

Seguimos com o Concurso Poeta Vivo, acreditando que o tempo de ler poesia é o mesmo que está habilitado a escrevê-la. O poeta é sempre nosso contemporâneo, palavra viva, trabalhador-refletor-leitor sobre a arte múltipla que, metaforicamente, desloca seu poder para nos fazer a um só tempo atores e platéia; introduzindo as mãos em personagens como se fosse uma luva podemos ser Falstaff, Lear, ou Ferreira Gullar para seguir o poder de condensar, de ampliar, de situar, de uma única vez para o sempre o que, em Vidráguas, dizemos: “Eles amaram ler” e seguem vivos, conVersando, leitores e escrevendo…

Carmen Silvia Presotto