Currently browsing Wisława Szymborska

“Nada acontece duas vezes”, poema de Carmen Presotto à Wislawa Szymborska

Nic dwa razy*
à Wislawa Szymborska



Tua asa em meu jardim
chega como se fosse uma pluma do Éden
paro, observo…

ela vem úmida
ela vem com sal
corro à piscina
vejo o banho do pássaro
olho à gaiola
ele está lá

enfim,
tudo em seus contornos
olho ao céu
a tempo de perceber um arco-íris em luz…

Poema de Carmen Silvia Presotto

*Nada acontece duas vezes

Vidráguas à Wislawa Szymborska



Radość pisania
poema de Wislawa Szymborska

Dokąd biegnie ta napisana sarna przez napisany las?
Czy z napisanej wody pić,
która jej pyszczek odbije jak kalka?
Dlaczego łeb podnosi, czy coś słyszy?
Na pożyczonych z prawdy czterech nóżkach wsparta
spod moich palców uchem strzyże.
Cisza – ten wyraz tez szeleści po papierze i rozgarnia
spowodowane slowem “las” gałęzie.

Nad białą kartką czają się do skoku
litery, które mogą ułożyć się źle,
zdania osaczające,
przed którymi nie będzie ratunku.

Jest w kropli atramentu spory zapas
myśliwych z przymrużonym okiem,
gotowych zbiec po stromym piórze w dół,
otoczyc sarnę, złożyć się do strzału.

Zapominają, że tu nie jest życie.
Inne, czarno na białym, panują tu prawa.
Okamgnienie trwać będzie tak długo, jak zechce,
pozwoli się podzielić na małe wieczności
pełne wstrzymanych w locie kul.
Na zawsze, jesli każę, nic się tu nie stanie.

A alegria da escrita
Tradução de Tiago Halewicz


Para onde corre esta cerva escrita na floresta que escrevi?
Para beber da água escrita,
que imprime seu focinho como se fosse folha de papel?
Por que ela ergue a cabeça, escutou algo?
Sobre as quatro patas emprestadas da realidade
ela levanta a orelha sob meus dedos.
Silêncio—esse termo murmura sobre o papel e afasta
os galhos que surgem com a palavra “floresta”.

Sobre a folha em branco agacham-se para um pulo
letras que podem se dar mal,
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.

Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar a cerva e apontar as armas.

Esquecem que aqui não há vida.
Preto e branco, aqui reinam outras leis.
Um piscar de olhos será tão longo quanto eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com o chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nenhuma folha cairá
e nenhuma grama se dobrará sob o casco da cerva.

Então existe um mundo assim,
sobre o qual exerce um destino independente?
Tempo, que eu teço com uma corrente de sinais?
Existência que, a meu comando, não terá fim?

A alegria da escrita.
O poder da consolidação.
A Vingança de uma mão mortal.

Tradução de Tiago Halewicz do poema original em polonês Radość Pisania, extraído de Wislawa Szymborska, Sto Pociech (Kraków: Wydawinictwo Literackie, 2007), em Memória Cultural Polonesa, p.p., 86.87, 88, 89., edição em parceria Vidráguas, StudioClio e Rodycz & Ordakowski Editores – 2008.

pensando a Poesia com Wislawa Szimborska

z6207039X

“ Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser evidentemente publicados, lidos e compreendidos, mas nada fazem, ou nada de significativo, para que no dia-a-dia possam se destacar entre as outras pessoas. E ainda não muito tempo atrás, nos primeiros dez anos de nosso século, os poetas gostavam de chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Unicamente para encher os olhos do público. Chegava o momento em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar – em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos – a folha de papel ainda em branco. Pois, no final é isso que, de fato conta.
(…)

1225313579_livrotiago

Leia todo o artigo
Read more »

nada acontece duas vezes

sojournofthesongbirds_26
Foto: Beth Moon, Sojourn of the Songbirds.

Nada acontece duas vezes
Nic dwa razy

Nada acontece duas vezes
e nem acontecerá. Por este motivo
nasceremos sem prática
e morreremos sem rotina.

Mesmo que fossemos os mais estúpidos
alunos do mundo na escola,
não vamos repetir
nenhum inverno, nenhum verão.

Nenhum dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos do mesmo jeito,
duas mesmas trocas de olhar.

Ontem, que alguém pronunciou
teu nome alto perto de mim,
foi como se uma rosa me tivessem
atirado por uma janela aberta.

Hoje, que estamos juntos,
virei o rosto para a parede.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor? Talvez uma pedra?

Por que tu, hora ruim,
te confundes com um medo desnecessário?
Se és – então tens de passar.
Se passarás – então será bela.

Sorridentes, abraçados,
tentaremos buscar um acordo,
mesmo que sejamos diferentes
como dois pingos de água limpa. *¹

Wisława Szymborska, Tradução de Tiago Halewicz, Memória Cultural Polonesa.

Amor à primeira vista

page4_blog_entry3_7
Foto: Henri Cartier-Bresson, Boulevard Diderot, 1969

Ambos estão convencidos
De que foi um sentimento súbito que os uniu.
Linda é uma certeza assim,
mas a incerteza é ainda mais linda.

Acham que por não
terem se conhecido antes
nunca houve nada entre eles.
E o que diriam as ruas, escadas, corredores,
pelo quais há muito tempo poderiam cruzar?

Gostaria de perguntar-lhes
Se não lembram –
na porta giratória
um dia cara a cara?
um “com licença” em meio à multidão?
A voz “engano” no telefone?
- mas conheço sua resposta.
Não, não lembram.

Ficariam muito espantados em saber
que desde muito tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não totalmente preparado
a transformar-se para eles num destino,
aproximava-os e os afastava,
cortava-lhes o caminho
e abafando a gargalhada
saltava para o lado.

Houve sinais, signos,
mas algo ilegível.
É possível que três anos atrás
ou na terça-feira passada
uma certa folha tenha voado
de um ombro para outro?

Houve algo perdido e recolhido.
quem sabe se já não uma bola
nos jardins da infância?

Houve maçanetas e campainhas,
em que antes
o toque se pôs no toque.
As malas lado a lado no depósito da bagagem.
Talvez, numa certa noite, o mesmo sonho
apagado imediatamente depois de acordar.

Entretanto cada princípio
é apenas uma continuação
e o livro de acontecimentos
está sempre aberto no meio.

Poema de Wisława Szymborska, tradução de Tiago Halewicz, Memória Cultural Polonesa